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O Jornal de S.Martinho de Mouros
Ventos da Mogueira entrevistou o Zé Fernando na qualidade de
treinador dos juniores 2005/06
VM - Em primeiro lugar queremos dar-lhe os parabéns pelo resultado que a sua
equipa conseguiu e perguntar-lhe como é que um treinador se sente neste
momento?
Tanto eu como o clube sentimo-nos bastante contentes, naturalmente pelo
resultado, mas principalmente por se ter atingido o nosso objectivo, que era
de imediato preparar e formar jogadores para o escalão sénior e neste momento
já temos 4 jogadores integrados no plantel sénior, um deles ainda é júnior e
os restantes serão jogadores do escalão sénior para o próximo ano, mas ainda
poderão serem integrados mais.
VM - No início do campeonato pensava que era
possível obter este resultado e pergunto-lhe também como é que conseguiu gerir
a partir de uma fase do campeonato a situação de só poder orientar a equipa
nos jogos?
Nunca estive obcecado pelo resultado dos jogos, mas sim que a equipa
assimilasse o modelo de jogo adoptado pela equipa técnica do clube, porque sem
isso não teria fundamento estar com uma equipa de formação. É evidente que não
foi fácil gerir uma equipa, que de um momento para outro ficou sem treinador
para os treinos. Desde o início da época desportiva eles foram avisados que,
por motivos profissionais, poderia não os acompanhar nos treinos. Até Dezembro
estive sempre presente e foi nesse período que eles tiveram que assimilar todo
o modelo de jogo, pelo menos os conteúdos possíveis, e a partir daí eles
treinavam sozinhos, alguns treinos integrados com os seniores ou, na semana
que antecedia um jogo muito importante, o Prof. Rui Rebelo assumiu alguns
treinos.
VM – Como é que se consegue um resultado destes
com uma equipa que no início do campeonato a maior parte dos jogadores não
tinham formação no Futsal?
Diz-se que é mais fácil educar uma criança do que corrigir um adulto, apesar
de não serem crianças mas sim jovens, demonstraram que possuíam espírito
aberto à aprendizagem e à evolução, juntamente com a humildade, cumprimento
dos treinos, identificação com o clube, concentração e vontade constante de
serem melhores hoje do que ontem. Verem que não só estavam numa equipa mas sim
num grupo que além de terem o mesmo objectivo desportivo era importante a
relação humana.
VM – Acha que um clube para atingir algum sucesso
deve apostar mais na formação dos jovens?
No
caso do nosso clube a resposta à essa pergunta é claramente um sim. Estamos
num concelho onde a margem de recrutamento de jovens é muito escassa e a
constante procura de jogadores para integrarem um plantel sénior, com os
objectivos desportivos como este clube tem, relacionados com os resultados, é
impensável um clube não ter formação para que não estejamos sempre a recrutar
jogadores que não têm experiência na modalidade federada, tendo-se que iniciar
sempre o processo de adaptação, o que é muito difícil e por vezes falhado.
Muitos defendem – e bem – que a formação deverá iniciar-se da base, ou seja,
das escolinhas ou infantis até aos juniores, mas o que nos interessava é que
tivéssemos jogadores a curto prazo aptos para os seniores e assim foi feito,
embora com algumas alterações continuaremos a fazê-lo desta forma.
Além destas razões, é sempre mais viável um jogador de formação, pois
poderemos ver a sua evolução e se este se identifica com o clube. Mas atenção
que isto não quer dizer que um clube não tenha que integrar outros jogadores
que não estiveram na formação do mesmo.
VM
– Quem os acompanhava diziam que à muito tempo que não viam um grupo de
trabalho tão unido como a equipa júnior, você como treinador da equipa como é
que conseguiu incutir este espírito tão forte em miúdos tão jovens, foi assim
tão fácil?
Foi fácil, como já o disse, eles desde o início estiveram motivados para a
competição, estavam ansiosos por participarem numa competição federada, e
muitos deles foram integrados pela primeira vez num clube, tudo isto
contribuiu para que houvesse união.
VM – Rui Miguel, Pedro Esteves, Daniel, Fabian,
Filipe e Bruno são jogadores que a curto prazo podem singrar na equipa sénior?
Claramente, quatro desses jogadores trabalham com os seniores desde que acabou
o campeonato dos juniores e já jogaram na fase final do campeonato sénior – a
liguilha. Apenas o Bruno e o Daniel não treinam no momento com os seniores.
VM – Qual foi o jogador ou jogadores que mais
evoluíram ao longo do campeonato?
Não queria destacar ninguém em especial, mas em geral, todos evoluíram
bastante. A dificuldade é que inicialmente estavam todos em patamares muito
diferentes. É preciso ver que de todo aquele plantel júnior, só três deles
tinham treinado no ano anterior com o plantel sénior, o que lhes deu um maior
conhecimento da modalidade e do nosso modelo de jogo.
VM – Rui Miguel, Daniel e Pedro Esteves eram
jogadores que desequilibravam ou o colectivo é que funcionou?
Como desporto colectivo o que interessa é o grupo num todo, poderá dizer-se
que um ou outro desequilibrava nalguns momentos do jogo por serem os melhores
marcadores, mas foi sempre o colectivo, pois só as individualidades não
funcionariam. Mas esses três jogadores são sem dúvida uma mais valia para uma
equipa e viu-se agora na fase final dos seniores.
VM – A chamada de jogadores à selecção de sub-18
foi também um factor de motivação para encarar o resto dos jogos que tinham?
Foi uma experiência bastante interessante e gratificante tanto para eles como
para mim, já que fui eu mesmo que os convoquei, sendo eu o treinador da
selecção sub-18 da Associação de Futebol de Viseu; como eu tinha que saber
dividir os meus papéis de treinador da equipa e dos sub-18 nunca disse nem a
eles nem ao clube que eu estaria a trabalhar com a A.F. de Viseu, apenas lhes
disse que em breve alguns deles poderiam serem convocados para treinarem na
selecção e só souberam, da minha função, quando chegaram ao primeiro treino da
selecção. É sempre um factor de motivação mas penso que foi mais ao nível
pessoal e para o clube que ficou honroso de ter jogadores seus na selecção,
colectivamente a equipa sentiu que afinal valia a pena continuar a treinar com
aquela dedicação porque poderiam ser recompensados ou reconhecidos. E posso
afirmar que o Daniel, João Tuna, Tó e o Fabian portaram-se muito bem.
VM – Pergunto se gostou de abraçar este projecto e
se não acha que foi um risco assumir o comando de uma equipa sem formação
nenhuma no Futsal porque está a iniciar a sua actividade como treinador
(qualificado) de Futsal e quando a equipa não ganha a culpa é sempre do
treinador e se as coisas não corressem bem, esta situação poderia afectá-lo de
alguma forma em termos psicológicos para o futuro?
Foi uma experiência muito importante abraçar este projecto e não considero que
fosse um risco porque fui eu que o propus à direcção. O único risco que temi,
inicialmente, é que o clube não tivesse recursos para suportar duas equipas
com um campeonato semelhante no número de jogos.
Não nego que vencer é um factor motivador e torna mais fácil gerir uma equipa,
mas como já disse, sempre nos debatemos internamente para que eles não
reagissem de forma negativa quando se perdia um jogo, e que os resultados não
eram assim tão importantes. É verdade que existia um balneário muito motivado
e com espírito competitivo mas encontraram-se algumas dificuldades em digerir
algumas derrotas e aí é que entra também uma das funções muito importante dos
treinadores e dos responsáveis directivos, ajudá-los a saber viver o desporto
em todas as situações, o saber ganhar e o saber perder. Faz-me lembrar um
episódio em Tabuaço que obtivemos uma derrota e obriguei-os no fim do jogo ir
à bancada bater palmas aos adeptos que lá se encontravam, por muito que lhes
custa-se reconhecer a derrota. Saíram de lá sabendo que jogaram muito bem mas
que não foram suficientemente fortes para evitar esse resultado menos
positivo.
VM
– Teve sempre o apoio da direcção mesmo quando os resultados não estavam a
aparecer ou sentiu em alguma circunstância que a direcção apoiava mais a
equipa sénior do que a júnior?
Nunca aconteceu uma fase em que os resultados não aparecessem, pelo contrário,
tivemos uma sequência de 5 jogos sem perder. Nunca aconteceu a direcção apoiar
mais uma equipa que outra, e este feito deve-se muito a duas pessoas que foram
incansáveis no apoio aos juniores, a todos níveis, um amigo do clube, Nelson
Xavier e um dirigente responsável pelos juniores, José Castro. É muito
importante que a direcção tenha dirigentes que se dediquem especificamente aos
juniores.
VM – Acha que o S.Martinho de Mouros com esta
direcção pode projectar o clube para voos mais altos ou seja de uma vez por
todas este clube tem pernas para andar?
Considero que sim, desde que haja estabilidade directiva e de outros factores
importantes para que um clube possa projectar a médio e longo prazo. Mas é
preciso ser racional e saber planear a longo prazo, porque o clube não pode
ambicionar voos muito altos enquanto o clube não tiver todas as estruturas que
isso importa para que arrisque tudo num campeonato. Penso que todos aprendemos
à medida que termina uma época desportiva, Deve-se reflectir no que falhou na
época anterior para que no ano seguinte melhore. Eu penso que é importante
mostrar, em primeiro lugar, ao concelho que o clube é sério e diferente do que
já houve até à data.
VM – Na sua opinião como é que vê o desporto a
nível do concelho acha que se está a fazer um bom trabalho nos clubes a nível
directivo como técnico?
Não sou a pessoa mais indicada para responder. Relativamente ao desporto
federado, posso dizer que já esteve pior, mas poderá melhorar e muito. Pelo
que eu li, houve uma proposta numa reunião da Câmara Municipal para uma
Constituição do
Conselho Municipal do Desporto e Assuntos Culturais e que foi deliberado,
por unanimidade, sendo remetido para estudo;
agora para que servirá isto, quais as linhas orientadoras desta constituição,
não sei mas poderá ser um avanço na cultura desportiva que em Resende ainda
não existe, na minha opinião. A nível directivo é muito difícil encontrar
pessoas disponíveis e capazes para trabalharem numa associação desportiva e a
nível técnico ainda é mais difícil. Mas há projectos com mérito e êxito, como
o de voleibol e do ténis-de-mesa, por exemplo, falta um clube de atletismo em
Resende.
Os
clubes precisam de ter nas direcções gente ligada ao desporto e, acima de
tudo, com cultura e conhecimentos de desporto! Com isto podem, por exemplo,
apostar num grande trabalho de formação, e esta será a chave do sucesso. Mas
isto dava para uma grande conversa…
VM – Qual é a sua resposta que você encontra para
que clubes como o Âregos e Unidos de Resende tenham desaparecido por completo
para o desporto e como é que um clube como o Resende que durante muitos anos
andou na 1ª divisão distrital e à uns anos para cá caiu na 2ª divisão e não
mais saiu de lá e por aquilo que se viu este ano ficou nos últimos lugares de
um campeonato com seis equipas tudo isto deve-se a má gestão por parte dos
responsáveis dos clubes que preferem pagar ordenados a treinadores e jogadores
de fora sem qualidade e não aproveitam os jovens da terra?
(Uma correcção, o Resende encontra-se na 3ª Div. Distrital) O concelho de
Resende é muito pequeno para a existência de tantos clubes com a mesma
modalidade. É impraticável que exista mais que um clube com a mesma
modalidade. Quanto à gestão é evidente que não foram esplêndidas, por exemplo,
anos atrás um jogador de Resende nunca poderia ganhar mais que um jogador de
fora, independentemente do seu valor, sempre foram descriminados
negativamente. Outro grande problema, foi que os clubes sempre basearam os
seus orçamentos nos subsídios do poder local. Formação? Só existia para
“sacar” mais dinheiro para os seniores. Agora os clubes sofrem pelos erros
cometidos anteriormente por todas essas gestões desportivas. Estamos no
momento certo para demonstrar que com empenho e a escolha de pessoas sérias e
capazes, é possível construir um projecto credível.
VM – Voltando a falar do S.Martinho de Mouros
acabou o campeonato e agora vão ficar parados ou já estão a trabalhar para a
próxima época?
Pelo que já sei, a direcção já está a programar o início a época, mas isso
terá que ser a mesma a falar. No que se refere ao escalão de formação, já
temos datas marcadas para treinos de captação que serão na segunda quinzena do
mês de Julho em S.Martinho de Mouros e em Resende. Não poderei adiantar mais,
porque em breve, tal como no ano passado, será feita uma reunião de final de
época com a equipa técnica.
VM – Por aquilo que soubemos a equipa júnior vai
perder alguns jogadores fundamentais que vão subir para a equipa principal tem
medo que para o ano não encontre uma equipa competitiva, isto é caso você se
mantenha no clube?
Do
plantel deste ano apenas 6 são juniores para o ano 06-07, e é provável que
alguns saiam da terra para estudarem no ensino superior.
Por isso, vamos construir uma equipa praticamente nova, é urgente fazer
captações, para tentar descobrir novos jogadores de outras localidades. O
principal problema poderá ser o transporte para os treinos regulares em
S.Martinho de Mouros.
Ficou provado que a equipa de juniores foi muito competitiva e alguns juniores
(Daniel, Fabian e Pedro) foram determinantes na fase final dos seniores, mas
para a próxima época será bem diferente, porque vamos apostar em jovens com
idade de juvenis para competir no escalão júnior. Temos que pensar a médio
prazo, queremos que os jovens tenham a possibilidade de competir durante mais
anos na formação para que haja algum tempo de aprendizagem e amadurecimento
para “reciclar” convenientemente, mais tarde, o plantel dos seniores.
VM – Para terminar e agora que o campeonato chegou
ao fim o que é que gostaria de dizer aos jogadores que vão para a equipa
sénior e também para os que se vão manter na equipa júnior qual é no fundo o
conselho que lhes gostaria de transmitir numa perspectiva de futuro?
Aos juniores que já estão nos seniores, apenas lhes direi que o ambiente do
balneário também dependerá deles, com o carácter deles, com as suas
personalidades contribuirão para o enriquecimento do espírito daquele
excelente grupo de trabalho. Os que continuam nos juniores, deverão dar
exemplo aos novos, do rigor, do esforço, da dedicação, da humildade e
essencialmente da camaradagem entre eles.
in Jornal Ventos da Mogueira
20 de Maio, 2006
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